No nosso país,
a urbanização, apesar de mais tardia do que
na generalidade dos países europeus e assumindo
algumas nuances particulares – das quais se destacam
a ausência de uma verdadeira revolução
industrial e o fortíssimo surto emigratório
da população –, passou a ter o maior
protagonismo no âmbito das grandes transformações
demográfico-espaciais que o país tem atravessado,
ao ponto de a sua população estar hoje quase
maioritariamente ‘urbanizada’.
Espaços
artificialicados, 2004
A realidade urbana nacional, face à informação
estatística disponível, sempre se manteve como
que envolta por alguma indefinição ou omissão.
Por exemplo, não existe ainda hoje informação
sobre o valor da população urbana nacional
e só recentemente (2004) passou a ser conhecida uma
importantíssima base de dados georeferenciada, para
o conjunto de 141 cidades. Sendo particularmente relevante,
esta última informação é todavia
insuficiente para uma apreciação mais ampla
do fenómeno urbano, na medida em que deixa de fora
importantes lugares, como por exemplo muitas sedes de concelho,
que não são cidades, mas que pelo protagonismo
social, administrativo e económico deveriam igualmente
ser objecto de análise estatística.
Em traços gerais, a realidade urbana nacional é marcada
desde muito cedo pela existência de um amplo conjunto
de cidades, mas de modesta dimensão demográfica.
Ainda hoje, com a excepção da cidade de Lisboa
e do Porto e das suas respectivas áreas metropolitanas,
as restantes cidades comportam um valor médio de população
relativamente diminuto – ronda os 29 000 habitantes
por cidade. A título de exemplo, refira-se que a lotação
oficial dos novos estádios de futebol do Euro 2004
comporta entre 65 000 e 30 000 espectadores, o que ilustra
comparativamente a escala das nossas pequenas cidades. Todavia é substancialmente
diferente a realidade urbana das duas áreas metropolitanas
de Lisboa e Porto. Aqui se concentram respectivamente 2 683
000 e 1 261 000 habitantes, o que no seu conjunto corresponde
a 39 % da população nacional. Se, no caso de
Lisboa, a designação de Área Metropolitana
ou conurbação metropolitana é correcta
e apropriada, já no caso do Porto o ‘centro’ não
possui funções terciárias em número
ou em qualidade suficientemente polarizadoras, capazes de
gerar uma periferia com o mesmo grau de dependência
da existente na Área Metropolitana de Lisboa. Na área
do Porto, o processo de urbanização é essencialmente
difuso, a par da distribuição do emprego, e
assim não se constitui um processo de metropolização
clássico, onde a grande cidade concentra a quase totalidade
dos serviços, sendo responsável pela elevada
pendularidade diária da sua população
e estruturação socioespacial de tipo centro/periferia.
Entre as duas áreas metropolitanas localizadas no
litoral oeste atlântico e centradas, respectivamente,
nas desembocaduras dos dois maiores rios, Tejo e Douro, desenvolve-se
uma extensa, mas não muito larga faixa urbana, que
desde muito cedo fixou a população. Esta Faixa
Litoral, na qual se incluem também as outras maiores
cidades, deve o seu protagonismo demográfico a razões
supostamente clássicas, mas que ainda hoje participam
da explicação geral: existência de terras
férteis, o estímulo da vida marítima
que favoreceu a atlantização do povoamento
e uma base topográfica relativamente plana, geradora
de redes de circulação terrestre mais cómodas.
Estes factores induziram também, mais tarde, o próprio
investimento industrial a que se seguiu o reforço
da urbanização e da própria terciarização
da economia e da sociedade. Na faixa litoral, para além
da referida Faixa Urbana Oeste-Atlântica (que grosso
modo se estende da foz do rio Sado à foz do rio Lima)
há ainda a Faixa Urbana Sul-Atlântica que corresponde à importante
e antiga rede de cidades algarvias. O restante espaço
nacional que poderemos designar de Espaço Interior, é estruturado
por uma matriz de pequenas e médias cidades onde algumas
entre si se congregam em subsistemas urbanos, nalguns casos
de elevada importância regional e mesmo supra-regional.
 
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