ATLAS DE PORTUGAL

O PAÍS SOCIOECONÓMICO

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ECONOMIA PORTUGUESA: ARTICULAÇÃO DIFÍCIL ENTRE MUDANÇAS INTERNAS E AS EXIGÊNCIAS COMPETITIVAS
Augusto Mateus

A evolução da economia portuguesa, tomada no ciclo longo que nos trouxe do rescaldo da segunda guerra mundial do século XX até aos primeiros anos do século XXI, corresponde, nas suas grandes linhas, a sucessivas manifestações de avanços e recuos, de sucessos e desaires, no desenvolvimento do processo de articulação entre as exigências competitivas da globalização das economias e dos mercados, em aceleração desde os choques do petróleo, e o ritmo e alcance das mudanças internas em termos de qualidade da organização empresarial, competência dos recursos humanos e eficácia e sustentabilidade dos modelos de governo e administração pública.

 

A dificuldade da articulação entre as dinâmicas internas e internacionais traduz, aliás, uma característica secular, quase permanente, que molda, afinal, a própria trajetória de muito longo prazo da:
— Economia de uma sociedade europeia que, se foi precoce (final do século XIV e século XV) na manifestação dos primeiros sinais de afirmação da burguesia como classe e do capitalismo como forma de organização económica, foi tardia (final do século XIX e meio do século XX) na plena afirmação das realidades industriais e urbanas que caracterizaram a plena afirmação de ambos;
— Economia de um Estado europeu que, sendo dos primeiros a construir um império, beneficiando duradouramente do respetivo retorno económico, no plano interno, foi o último a descolonizar, sendo, talvez, o que revelou maiores dificuldades de adaptação na montagem de novas, equilibradas e significativas relações económicas com as antigas colónias, seja na América, na África ou na Ásia;
— Economia de referência de empresários europeus que, tendo liderado, com os Descobrimentos, a formação da primeira configuração uma economia verdadeiramente mundial, e tendo tido a ‘sorte’ (ou o ‘azar’...) de encontrar sucessivos ciclos de comércio internacional proveitoso, foram conhecendo dificuldades crescentes, seja na diversificação de mercados, seja na diversificação e valorização dos produtos de exportação, com a progressiva internacionalização do comércio e do investimento, sobretudo quando ela, acentuando a sua profundidade, se passou a designar por globalização (os mares, onde os navios portugueses dominaram esmagadoramente, como se sabe, nos séculos XVI e XVII, com mais de dois terços dos efetivos, exprimem com dureza este processo uma vez que, nos nossos dias, bastante menos de 1% da frota comercial mundial tem origem portuguesa).
A dificuldade da articulação entre as dinâmicas internas e internacionais, que se justifica por um vasto e complexo conjunto de fatores e fenómenos históricos, sociais, culturais, religiosos e políticos, muito para além dos aspetos estritamente económicos, prende-se, também, com duas questões relevantes que importa referir.
Em primeiro lugar, estas dificuldades apresentam um lado particularmente estimulante, na medida em que representam como que um ‘preço a pagar’ pelas sucessivas realizações em matéria de superação da pequena dimensão do território e da população que, em Portugal, suportam o Estado e estruturam a economia. Outras sociedades europeias de pequena dimensão, como é o caso da Bélgica e Holanda, na velha região da ‘Flandres’, terão encontrado uma solução diferente, e eventualmente melhor, para estas dificuldades enveredando de forma mais determinada e qualificada para a plena especialização em funções de intermediação entre os grandes espaços económicos da economia mundial e percebendo as vantagens da ‘abertura’ sobre o ‘fecho’ das respetivas economias, mas muitas outras não se conseguiram aproximar da relevância alcançada pela sociedade portuguesa. O último grande investimento português em Macau (um moderno aeroporto sem qualquer ponto de contacto com a agenda portuguesa prática para o início do século XXI) constitui, seguramente, um bom exemplo da perda de coerência e do agravamento das limitações surgidas das contradições suscitadas pelas oscilações entre as opções por uma ‘lógica de império’, sem base dimensional, político-militar e técnico-económica, suficiente, ou por uma ‘lógica de intermediação’, sem suficiente cultura de risco, abertura e cosmopolitismo.
Em segundo lugar, estas dificuldades apresentam um lado bem menos estimulante, na medida em que representam uma espécie de ‘deficiência’ associada a uma incapacidade crónica de ordenamento do território e de valorização da diversidade da geografia física e humana do país, produzindo uma minimização e fragmentação da base espacial da economia portuguesa e uma exagerada rivalidade regionalista alimentada pela difusão de referenciais demasiado comuns e imitativos, para os modelos de produção e de consumo, e por formas de centralismo que foram gerando progressivamente uma capital demasiado grande para o país e demasiado pequena para a Europa e para o Mundo. A resistência secular de uma organização administrativa do país sem correspondência com a evolução das realidades urbanas e empresariais, bem como a proliferação, mais recente, da criação de ‘cidades’ sem a dimensão de vilas ou de ‘áreas metropolitanas’, sem a dimensão de cidades médias, constitui uma boa expressão destas dificuldades associadas à gestão estratégica do território, onde o ‘grande’ (exigindo centralização e seletividade) e o ‘pequeno’ (exigindo descentralização e equidade) parecem, quase sempre, assustar os modelos estabelecidos de governação.
As dificuldades de articulação entre as dinâmicas interna e externa encontram expressão, também, neste muito longo prazo, no claro predomínio de estratégias incompletas e unilaterais de crescimento económico, fossem elas introvertidas (‘viradas para dentro’) ou extrovertidas (‘puxadas de fora’), sobre algumas breves tentativas estratégicas, mais completas e equilibradas, polarizadas pela ideia de um desenvolvimento ‘a partir de dentro’, até porque esse foi, quase sempre, o sentido prevalecente dos mecanismos de suporte das principais forças económicas e políticas.
A democratização (1974) e a plena integração da sociedade portuguesa no processo de construção europeia (1986) constituem, simultaneamente, as grandes ruturas e os grandes marcos na evolução da economia portuguesa nos últimos sessenta anos, tendo criado, à entrada do século XXI, um regime económico e social onde não é reconhecível quase nenhum dos traços do regime económico e social vigente, à saída da segunda guerra mundial do século XX, nomeadamente no que respeita às formas de regulação dos mercados, aos mecanismos de proteção social e à própria dimensão do setor público, muito mais relevante como empregador, muito menos relevante como produtor.
A economia portuguesa encontra-se, assim, finalmente, plenamente inserida, nos nossos dias, nos exigentes desafios de uma complexa articulação entre o funcionamento conjunto do ‘mercado’ e da ‘democracia’, enquanto grandes mecanismos de coordenação em ação e onde quer a qualidade das estratégias de investimento e consumo, quer a qualidade das formas de regulação e regulamentação se tornaram ainda mais decisivas para o desenvolvimento económico e social e para a qualidade de vida das populações.

 

O impulso da democratização...
A democratização da sociedade portuguesa iniciou-se em 1974 que representou, igualmente, um momento explícito de viragem à escala mundial, não só em termos económicos, mas também com significativas transformações de origem política, militar, social e cultural.
Os anos 70 foram, com efeito, marcados, no terreno económico, pela combinação e desenvolvimento de quatro ruturas que moldaram a transição de um crescimento económico rápido e regular, conhecido na fase pós-guerra, para um crescimento económico bem menos rápido e bem mais irregular, na fase atual. Essas ruturas envolvem, em linhas muito genéricas, os seguintes aspetos:
— Uma rutura energética que, para além dos efeitos dos vários ‘choques petrolíferos’, traduzidos em fortes oscilações dos preços relativos, conduziu a uma alteração substancial de normas de produção e de consumo criadas num contexto, ultrapassado, de energia abundante e barata.
— Uma rutura monetária e financeira, traduzida na instabilidade estrutural do ‘sistema’ monetário internacional e no enorme dinamismo dos mercados financeiros, e que conduziu a uma muito difícil articulação entre a ‘economia real’ e a ‘economia financeira’ no quadro, mais geral, da afirmação de formas de ‘capitalismo patrimonial’ suportadas pela financiarização generalizada de ativos;
— Uma rutura na natureza do crescimento industrial, traduzida no esgotamento das formas de organização do trabalho e de relação ecológica que estavam associadas ao modelo então prevalecente, que tem conduzido a alterações, relativamente radicais, no conteúdo em emprego
do crescimento económico (muito menor, em termos quantitativos, muito mais exigente, em termos de qualificações);
— Uma rutura demográfica, traduzida em transformações profundas nos perfis de natalidade e mortalidade e nos modelos de organização familiar, dominadas pelo envelhecimento no ‘velho’ mundo e acentuação dos fluxos migratórios, com reflexos relevantes no dinamismo económico, moderando-o na Europa e no Japão, acentuando-o nos grandes países emergentes.
O crescimento económico português, no ciclo longo em análise, produziu, neste quadro, um conjunto de transformações de grande alcance que são normalmente associadas, no referencial do emprego nos grandes setores de atividade, à perda da posição dominante da agricultura, primeiro em favor da indústria, no final dos anos 60, depois em favor do comércio e serviços, no início dos anos 70, que, por sua vez, vieram a ultrapassar a indústria e construção no início dos anos 80. A economia portuguesa realizou, assim, em pouco mais de uma década, a passagem da ‘desruralização’ à ‘terciarização’, processo que na generalidade dos países europeus tinha requerido mais do que uma geração a exprimir-se plenamente.
A análise das três décadas de crescimento económico que trouxeram a economia portuguesa da abertura comercial, nos anos 60, à concretização da plena adesão à União Europeia, nos anos 80, no plano da repartição setorial dos recursos, do emprego e do valor acrescentado pelas grandes atividades económicas, revela uma alteração estrutural realmente profunda com repercussões muito relevantes na configuração global da sociedade portuguesa, nomeadamente em aspetos como a ocupação do território, a urbanização, a demografia, as estruturas familiares, os modelos culturais e de consumo e o grau e formas de abertura ao exterior.
A evolução das grandes atividades económicas, intermédias ou finais, reflete uma transformação estrutural igualmente significativa, cuja tendência pesada é representada, mais detalhadamente, por três movimentos bem definidos:
— O reforço dos segmentos associados ao esforço direto e indireto de exportação nas cadeias têxtil (‘puxado’ pela ascensão da confeção e do calçado) e metálica (‘puxado’ pela ascensão do material elétrico e dos componentes para automóveis);
— A estabilidade de longo prazo, embora com algumas oscilações mais ou menos significativas ao longo dos anos 70, dos segmentos associados ao esforço direto e indireto de satisfação do consumo nas cadeias alimentar e metálica e de exportação na cadeia florestal;
— O recuo mais ou menos acentuado dos segmentos associados ao esforço direto e indireto de satisfação do consumo, na cadeia têxtil, e de equipamento duradouro nas cadeias metálica e de materiais de construção.

...e da plena integração europeia
A plena integração da economia portuguesa no processo de construção europeia possibilitou, para além de favorecer a consolidação do processo de democratização da sociedade portuguesa, concretizar um significativo conjunto de transformações num ambiente caracterizado por um significativo crescimento económico e por uma razoável estabilidade macroeconómica.
A economia portuguesa pode, assim, alcançar resultados positivos, quer nos seus esforços de convergência real, aproximando o seu nível médio de vida, medido em paridades de poder de compra, do nível médio de vida na União Europeia (UE-15), passando de cerca de 55%, no ano da adesão, para cerca de 70%, no ano de entrada em vigor da moeda única, no final dos anos 90, quer nos seus esforços de convergência nominal, reduzindo drasticamente as disparidades em matéria de inflação e taxas de juro, o que viria a permitir, em 1997, a entrada do país no grupo dos fundadores da moeda única europeia.
Os esforços de convergência nominal e real coexistiram, no entanto, com alguns traços particulares de modelo de desenvolvimento, nomeadamente os que se traduziram num:
— Crescimento económico muito mais ‘puxado’ pelo aumento conjuntural do emprego apoiado numa conservação da especialização produtiva em atividades dotadas de insuficiente qualificação e diferenciação, do que ‘empurrado’ pelo crescimento sustentado da produtividade ancorado numa mudança da especialização produtiva e dos modelos de negócio em direção a atividades de maior produtividade e valor acrescentado;
— Crescimento onde o ritmo de expansão do consumo público se revelou bem mais elevado do que o verificado no conjunto das economias da União Europeia, por ‘boas’ (recuperação de atrasos em matéria de infraestruturas e proteção social, nomeadamente) e ‘más’ (ineficiência e ineficácia dos aparelhos de administração e gestão, insuficiente planeamento e controlo das despesas correntes, baixa produtividade, nomeadamente) razões;
— Crescimento com uma significativa tendência de desequilíbrio externo evidenciada por um ritmo de crescimento das importações de bens e serviços que foi superando, fora dos períodos de recessão, quase sempre o das exportações e mantendo, desse modo, um défice comercial de natureza estrutural (a evolução do défice comercial nas relações com a Espanha ilustra bem esta tendência).
O modelo de crescimento adotado, não implicando uma forte progressão qualitativa nem uma significativa transformação da especialização de atividades, privilegiando investimentos centrados no capital físico, seja ao nível empresarial onde a renovação e modernização de equipamentos se sobrepôs, com clareza, aos investimentos imateriais, de organização ou de desenvolvimento do capital humano, seja ao nível das infraestruturas, onde a lógica da respetiva construção se sobrepôs, também com clareza, à lógica da respetiva utilização eficiente, da prestação de serviços à logística, configurou-se, portanto, basicamente como um modelo extensivo, apoiado, muito mais, na criação de empregos num número limitado de atividades do que na obtenção de ganhos significativos em termos de produtividade (‘mais do mesmo’).
A economia portuguesa manteve, nesse contexto, uma taxa de desemprego relativamente associada a subidas moderadas do salário médio real, desempenho obtido, em grande parte, pelo dinamismo da procura interna suportado pelo progressivo endividamento das famílias e do setor público. Com efeito, nos fatores internos de dinamização da economia portuguesa contaram, em muito, quer a expansão do consumo de bens duradouros das famílias, ligado muito em particular à construção, habitação e imobiliário e induzido pela redução das taxas de juro, quer a expansão da despesa corrente do Estado claramente acima do que seria exigido por uma consolidação orçamental plenamente orientada para concretizar os ajustamentos competitivos e as reformas estruturais necessárias para enfrentar com sucesso os desafios colocados pela globalização e pela lógica de aprofundamento e alargamento da União Europeia.
A progressiva perda de ‘fôlego’ da convergência real, sobretudo em termos de produtividade, revela bem que a economia portuguesa se foi aproximando de uma ‘encruzilhada estratégica’, isto é, de uma situação em que não só se esgotaram, em larga medida, quer o modelo de crescimento económico, quer os fatores competitivos em ação nas duas últimas décadas, como se tornou claro que os efeitos de dinamização da procura interna não seriam sustentáveis no futuro, explicando, em boa parte, as dificuldades de crescimento na economia portuguesa, sentidas de forma expressiva a partir da entrada no século XXI.
A degradação do ritmo, e da qualidade do crescimento económico, manifestou-se através do duro confronto com uma produtividade demasiado baixa e uma especialização produtiva demasiado vulnerável para os desafios da globalização e da união económica e monetária, numa Europa em alargamento a Leste, através do desequilíbrio estrutural nas contas públicas, que vai reduzindo a capacidade de manutenção e desenvolvimento das infraestruturas e serviços coletivos de eficiência, coesão e competitividade.


A união económica e monetária e o alargamento colocam novos desafios
O problema enfrentado pela economia portuguesa foi, afinal, o da descoberta de que, num espaço europeu em alargamento e aprofundamento, o início do caminho era bem mais fácil do que a respetiva consolidação, ou, noutras palavras, parece bem mais fácil ser ‘bom aluno’ como ‘país da coesão’ do que como ‘país da moeda única’.
A economia portuguesa encontra-se, na fase atual, numa fase crucial do seu processo de desenvolvimento e modernização marcada, no essencial, pela necessidade de desenvolver um vasto conjunto de ajustamentos estratégicos suscitados quer pelo novo regime económico resultante da concretização da União Económica e Monetária, quer pelo alargamento da União Europeia a um vasto conjunto de países dotados, de um modo geral, de níveis de remuneração bastante mais baixos e de níveis de educação e qualificação da sua população ativa bastante mais elevados do que os verificados em Portugal.
As alterações verificadas na política económica portuguesa resultantes quer da perda dos instrumentos monetários e cambial, transferidos para a nova dimensão da política monetária e cambial da União Europeia, conduzida com independência pelo Banco Central Europeu e dominada por um mandato centrado na defesa da estabilidade dos preços, quer da redução da margem de manobra das políticas orçamental e fiscal, sujeitas a um regime de rigor e harmonização impostas por um Pacto de Estabilidade e Crescimento, exprimem com clareza a necessidade e o alcance desses ajustamentos no plano das políticas públicas.
As alterações verificadas nas condições de localização do investimento internacional na Europa, onde os países da Europa do Sul, e em especial Portugal, se tornaram bem menos atrativos do que os países do alargamento, enquanto ‘nova fronteira’ de transição e crescimento económico interna à própria União Europeia, seja por razões de custos unitários da produção, seja por razões logísticas, exprimem, com igual clareza, a necessidade e o alcance desses ajustamentos no plano do funcionamento das atividades económicas, do mercado de trabalho e das estratégias empresariais.
As debilidades competitivas da economia portuguesa, traduzidas, num nível de produtividade que se tem mantido, persistentemente, muito abaixo do atingido pelos nossos parceiros da União Europeia, mesmo daqueles que connosco partilham objetivos de convergência real, correspondem, no essencial, a uma certa ‘cristalização’ da nossa especialização internacional em atividades de transformação de baixo/médio valor acrescentado, inseridas em formatos de subcontratação e sem especial espessura ao nível das atividades de investigação, conceção e distribuição.
A economia portuguesa tem vindo a assistir a uma progressiva deterioração da rendibilidade potencial do seu setor exportador, a partir do momento em que, terminado o ciclo de desvalorização do escudo que repunha, artificialmente, a competitividade-preço das exportações, não se assistiu a uma suficiente alteração estrutural dos fatores competitivos em direção à competitividade não-custo, da especialização internacional em direção a atividades de maior valor acrescentado.
Portugal apresenta um dos maiores desequilíbrios na relação entre evolução de preços e custos, penalizando significativamente a rendibilidade das atividades de bens e serviços transacionáveis e gerando uma espécie de ‘desconexão’ entre a evolução dos preços e custos internos e dos preços e custos internacionais.
A afirmação desta forma particular de dualismo económico e, nesse sentido, de degradação da coesão económica do País, traduzida em restrições cada vez mais duras para a operação das atividades de bens transacionáveis, seja em termos de preços e margens reduzidos, seja em termos de ajustamentos mais fracos e lentos na melhoria do quadro de remuneração dos fatores produtivos (rendibilidade das empresas e/ou remuneração do trabalho), enquanto as atividades de bens e serviços não transacionáveis vão escapando a essas restrições com níveis de progressão de preços bem mais elevados, que tendem a atrasar os processos de reorganização e desenvolvimento tecnológico, necessários para gerar aumentos sustentados de produtividade, e a agravar, gerando uma inflação interna mais elevada, as dificuldades competitivas das atividades expostas à concorrência internacional.
A pressão sobre o nível de coesão interna da economia portuguesa é especialmente relevante no quadro da formação de uma Europa alargada, que coloca, como vimos, novas questões e dificuldades, nomeadamente as que relevam da articulação entre uma necessidade de acelerar a mudança do padrão de especialização em direção a atividades e modelos de negócio baseados em fatores avançados e sofisticados, por um lado, e uma necessidade de ganhar dimensão e corrigir as desvantagens de uma localização relativamente periférica, em relação ao novo centro de gravidade desta Europa alargada, acelerando o esforço global de abertura e internacionalização da economia portuguesa.

SEIS GRANDES PERÍODOS HISTÓRICOS

NA EVOLUÇÃO MAIS RECENTE

DA ECONOMIA PORTUGUESA

 

Autarcia e Protecionismo (antes de 1959)
Proteção concorrencial interna e externa, salários e qualificações muito baixos; Permanência de uma relevância global do modelo colonial; Preponderância do pequeno mercado doméstico sujeito a uma forte regulação estatal suportada por múltiplos condicionamentos de tipo administrativo; Fraco dinamismo económico estrutural e muito baixa produtividade num contexto de ‘relações industriais’ congeladas pela organização corporativa; Modelo de consumo truncado, limitado pelo baixo nível de vida da população e polarizado pela despesa alimentar; Muito baixos níveis globais de escolaridade e persistência de níveis elevados de analfabetismo.

 

Abertura Comercial (EFTA) e Emigração (1959/1973)
Desarmamento pautal controlado e maior acesso aos mercados europeus ‘atlânticos’ e ‘nórdicos’ para certos produtos industriais; Formação de um setor exportador mais moderno apoiado em atividades de transformação de recursos naturais ou intensivas em mão-de-obra; Desenvolvimento de uma emigração massiva para o espaço central europeu (em especial, França e Alemanha) arrastando um maior crescimento salarial em segmentos de escassez ou qualificação mais elevada; Progressiva decomposição do modelo colonial e da gestão administrativa das barreiras à entrada nas atividades económicas; Crescimento significativo da população nos centros urbanos; Passos muito limitados nos mecanismos de proteção social do ‘Estado Providência’; Lenta melhoria dos níveis de escolaridade.

 

Choques Petrolíferos, Descolonização e Democratização (1974/1985)
Inflação elevada; Energia cara; Descolonização e perda de relevância do ‘comércio colonial’; Nacionalização dos principais grupos financeiros (bancos, seguros, indústria); Consagração das liberdades democráticas, direitos laborais alargados, melhoria significativa das condições de remuneração e redução do tempo de trabalho; Reorganização das associações empresariais e sindicais num quadro não corporativo; Desvalorização continuada do escudo no quadro da resposta a crises na balança de pagamentos (acordos com o FMI); Crescimento relevante do mercado doméstico pelo aumento conjugado da população (travagem abrupta da emigração e absorção dos retornados das ex-colónias) e do poder de compra; Alargamento da escolaridade no secundário; Maior presença nos mercados europeus e início da modernização do modelo de consumo pela expansão do nível de equipamento doméstico associado à urbanização concentrada.

 

Plena Adesão às Comunidades Europeias no caminho do Mercado Interno Europeu (1986/1992)
Início do acesso aos fundos estruturais europeus para desenvolver infraestruturas e apoiar o investimento produtivo privado; Melhoria generalizada das condições básicas de vida e desenvolvimento rápido dos mecanismos de proteção social; Energia barata; Crescimento extrovertido e rápido, refletindo a ascensão de novas atividades de exportação dinamizadas pelo investimento estrangeiro (automóvel, eletrónica); Forte penetração das importações no mercado doméstico em resposta à modernização do modelo de consumo; Conjuntura de elevadas taxas de juro; Afirmação de desequilíbrios orçamentais e perda de eficiência fiscal; Passos na liberalização da ‘regulação estatal’ dos mercados com a eliminação dos controlos de preços e o início do processo de privatizações; Recessão e degradação financeira de muitas empresas no final do período.

 

Convergência Real e Nominal no caminho da União Económica e Monetária Europeia (1993/1999)
Intensificação do papel dos fundos estruturais no crescimento económico, com a consolidação do investimento público e dos incentivos ao investimento privado, através dos Quadros Comunitários de Apoio a Portugal; Ligeira revalorização do escudo e estabilização com a adesão ao mecanismo de taxas de câmbio do Sistema Monetário Europeu, no quadro da preparação da moeda única; Desinflação sustentada, com convergência para os valores médios europeus, e redução sensível das taxas de juro; Aceleração do processo de privatizações e redução do peso relativo da dívida pública; Aumento da escolaridade no ensino superior; Empresas, setores e regiões com várias velocidades de modernização; Início da internacionalização ao nível do investimento direto no exterior; Abertura financeira e início do uso mais intensivo às tecnologias de informação e comunicação.

 

Crise das Finanças Públicas e Dificuldades de Convergência numa Europa de Moeda Única e em Alargamento (depois de 2000)
Progressiva dificuldade em lidar com as exigências do Pacto de Estabilidade e Crescimento (défice excessivo em 2001, défices elevados, só contidos com receitas extraordinárias em 2002, 2003 e 2004); Manutenção de taxas de juro baixas; Aumento generalizado do endividamento, das empresas, do setor financeiro e do Estado e, muito especialmente, das famílias; Perda de competitividade agravada pela valorização do euro e por uma inflação interna tendencialmente superior à inflação média na União Europeia; Progressiva transição da situação de ‘país da coesão’ para a de ‘país da moeda única’; Aceleração drástica das formas de integração económica entre Portugal e Espanha, que se torna no seu principal parceiro, sucedendo ao Reino Unido e ao eixo composto pela França e Alemanha; Os processos de deslocalização industrial acentuam a necessidade de melhorias muito significativas no padrão de especialização, na organização empresarial e nos níveis de produtividade, pressionadas pelo alargamento aos países da Europa Central com níveis de educação mais elevados e níveis de salários mais baixos.


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