ATLAS DE PORTUGAL

O PAÍS SOCIOECONÓMICO

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Fernando Ribeiro Martins

ATIVIDADES DA TERRA
A floresta

Distribuição dos tipos de povoamento florestal, 1999
Distribuição dos tipos de povoamento florestal, 1999

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A floresta atual é o resultado de um longo processo evolutivo, marcado por influências edáficas e climáticas, e pela ação modeladora/destruidora do Homem. Daí que a repartição atual das espécies já pouco tenha a ver com a de há alguns séculos.
O alastrar da floresta portuguesa é relativamente recente e a proliferação das duas espécies dominantes, o pinheiro bravo (Pinus pinaster) e o eucalipto (Eucaliptus globulus), que cobrem atualmente mais de metade do território continental (31% e 21%, respetivamente), ocorreu essencialmente durante o século XX. O pinheiro, principalmente a partir dos anos 40, primeiro, aquando da reflorestação de inúmeros baldios serranos, e, depois, por substituição de áreas agrícolas abandonadas ou pouco produtivas, nomeadamente olivais.

 

Carta Ecológica
Distribuição das espécies florestais, 1999


A grande expansão do eucalipto é ainda mais recente (anos 70 em diante) e está associada à implantação das indústrias de celulose e papel que, por um lado a realizaram e, por outro, a fomentaram em terrenos particulares. A procura de matéria-prima e os lucros que o rápido desenvolvimento desta espécie proporciona foram as causas da sua grande expansão e, simultaneamente, da polémica que lhe tem estado associada do ponto de vista de ordenamento florestal, quer pela degradação dos solos e elevada exigência de água, quer pelos inconvenientes da monocultura e da perigosidade face à ocorrência de incêndios.
Apesar da relativa exiguidade do território nacional, a diversidade e a coexistência de espécies oriundas de áreas muito diversas do globo, são duas das principais características da floresta portuguesa. Os regimes térmico e pluviométrico, e sobretudo o seu desencontro, ao longo do ano, principal característica do território continental devido à sua posição em latitude, são os principais responsáveis pela distribuição das principais espécies vegetais. Definem-se, assim, duas áreas principais: uma a Norte, onde se encontram espécies de folha caduca típicas da Europa oceânica, que aqui encontram o seu limite mais meridional; outra, de cariz significativamente mediterrâneo a Sul do Continente, onde predominam espécies de folha persistente e com adaptações xerófitas, vários cistus e plantas aromáticas, são apenas alguns exemplos. Sempre que outros fatores climáticos, como a altitude, a exposição ao sol e aos regimes de vento dominantes ou a proximidade a linhas de água, se fazem sentir com maior ou menor intensidade, assim as várias espécies de cariz mais atlântico ou mais mediterrâneo vão encontrando condições limitantes ou favoráveis ao seu desenvolvimento.

Espécies florestais indicadas para cada região de arborização

Espécies florestais indicadas para cada região de arborização

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A floresta é um dos elementos fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas (flora e fauna), e, simultaneamente, uma importante e variada fonte de riqueza para a economia nacional.
A produção lenhosa extraída anualmente eleva-se a cerca de 11,5 milhões de m3, dos quais as duas principais espécies madeireiras, o pinheiro-bravo e o eucalipto, contribuem, respetivamente, com 6,2 milhões de m3 e 4,5 milhões de m3.
Entre os produtos não lenhosos com maior valor económico destacam-se a resina e a cortiça, principalmente esta última, uma vez que a produção média anual de resina decaiu de cerca de 100 000ton/ano para menos de 40 000ton/ano, nas duas últimas décadas, em consequência da entrada no mercado mundial de resinas sintéticas e das provenientes de países com baixos custos de produção. Com uma produção de cortiça (amadia e virgem) de cerca de 160 000ton/ano, Portugal é o primeiro produtor mundial, realizando um volume médio de negócios, cerca de quatro vezes e meio superior ao dos produtos lenhosos e mais de metade do obtido no conjunto dos produtos florestais. A produção de mel e frutos silvestres, castanha e de pinhão, característicos da floresta mediterrânea, merece algum destaque, pois representa cerca de 9% das receitas anuais obtidas da floresta.
Segundo os últimos dados disponíveis (1999), a floresta e as atividades correlacionadas representaram mais de 100 milhões de Euros, ou seja, 3,2% do VAB nacional e 3% do emprego em Portugal, garantindo 140 000 postos de trabalho permanente.
A floresta tem vindo a ser procurada e valorizada, cada vez mais, como espaço de excelência para o recreio e lazer, onde se procura ar puro e tranquilidade para além da agradabilidade do espaço em si mesmo, de que os carvalhais do Parque Nacional da Peneda-Gerês e do Nordeste Transmontano e os bosques do Buçaco e da Serra de Sintra são apenas alguns exemplos. O desenvolvimento turístico equilibrado e sustentado da floresta tem sido, aliás, uma das apostas de muitas áreas rurais que, valorizando os recursos endógenos, têm proporcionado mais e melhores condições de utilização da floresta, promovendo atividades culturais e desportivas que têm tido uma procura crescente.
A valorização crescente dos espaços florestais, associada à preservação do ambiente e a uma gestão correta e eficiente, tem sido responsável por um número crescente de iniciativas, entre as quais se destacam a Lei de Bases da Política Florestal (Lei n.º 33/96, de 17 de agosto), o Plano de Desenvolvimento Sustentável da Floresta Portuguesa (1999) e o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (1999). Mas muitas outras se poderiam enumerar, nomeadamente as relacionadas com questões ambientais (Reserva Ecológica Nacional, Rede Nacional de Áreas Protegidas, Natura 2000) e de Ordenamento (por exemplo, as previstas no III Quadro Comunitário de Apoio que incluem, entre outros, aspetos relacionados com a diversidade biológica, a resistência ao fogo das espécies florestais e a valorização da função paisagística).
A nível internacional, Portugal tem colaborado em diversas iniciativas, tanto para as Nações Unidas (coorganizando duas reuniões sobre Reabilitação dos ecossistemas florestais degradados e O papel das florestas plantadas na Gestão Florestal Sustentada), como no âmbito da Comissão Europeia das Florestas (em 1998, realizou-se em Lisboa a Conferência Ministerial para a Protecção das Florestas na Europa). O conhecimento global da floresta portuguesa e da sua importância económica é relativamente recente. O primeiro inventário florestal nacional realizou-se há apenas quatro décadas (anos de 1965 e 1966), a partir do qual foi possível avaliar, com algum rigor, a extensão das áreas florestais e os acréscimos de povoamentos das principais espécies existentes (pinheiro bravo e eucaliptos); tendo ocorrido já três revisões desse inventário (1980, 89 e 99), a última permitiu, pela primeira vez, obter uma cobertura integral da ocupação do solo de Portugal continental. Os últimos dados disponíveis indicam que 38% da área do continente é de uso florestal (cerca de 3 500 000ha), dos quais 61% correspondem a povoamentos de espécies folhosas, 26% de espécies resinosas e os restantes 13% a povoamentos mistos de folhosas e resinosas.
A floresta da Região Autónoma da Madeira, pouco mais de 36 100ha, reparte-se quase equitativamente por floresta natural, Laurissilva, e por floresta exótica, como já foi referido. A floresta introduzida é composta essencialmente por pinheiro bravo (46%), eucalipto (12%), castanheiro (6%), acácia (2%), e por inúmeras espécies folhosas e resinosas, entre as quais, a nogueira, o carvalho, a criptoméria; em Porto Santo, a floresta é constituída quase exclusivamente por pinheiro de Alepo (600ha).

Distribuição da floresta nas ilhas da Madeira e do Porto Santo, 2000

Distribuição da floresta nas ilhas da Madeira e do Porto Santo, 2000

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Nas nove ilhas do arquipélago dos Açores a floresta ocupa cerca de 30% do território e pode agrupar-se em dois grandes grupos: a floresta de proteção e a floresta de produção. Na floresta de proteção, dominam as faias, laurifólias, ilex, zimbral e ericais que ocupam ainda longas áreas em todas as ilhas; na floresta de produção, os povoamentos de criptoméria (Cryptomeria japonica), acácia (Acacia melanoxylon), pinheiro bravo (Pinus pinaster) e eucalipto (Eucaliptus globulus), predominam na Ilha de São Miguel.

 

Floresta, área de risco

Floresta, área de risco (FOGOS)

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As características climáticas do período estival, marcadas por verões quentes e secos – tanto mais acentuados quanto mais vincadas são as características mediterrâneas no território nacional – têm proporcionado condições suscetíveis da ocorrência de incêndios, um dos maiores flagelos da floresta portuguesa. Contudo, estas não derivam apenas dos atributos climáticos desfavoráveis. Também o decréscimo da população rural, o abandono de terras agrícolas, a redução do consumo de combustíveis e de fertilizantes vegetais, a diminuição dos efetivos de gado e do seu pastoreio, o desaparecimento de atividades tradicionais (como a resinagem) e as alterações de uso do coberto vegetal nas últimas décadas, onde se inclui a expansão da monocultura de eucalipto, figuram também como importantes causas do agravamento da ocorrência de fogos.
Durante o período 1983/2004 os incêndios dizimaram mais de 2,7 milhões de hectares. Só em 2003, ano de maior calamidade e que afetou com particular incidência as regiões do Centro interior e da Serra Algarvia, arderam 425 700ha (mais do que havia ardido nos primeiros quatro anos da década anterior). Os primeiros cinco anos deste século foram particularmente graves (à média de 190 200 ha/ano), tendo já ardido mais de 1/10 da área total do Continente (951 100ha). Imagens de satélite tornaram possível avaliar os danos registados na década anterior, de acordo com a ocupação do solo. As espécies florestais mais sacrificadas foram o pinheiro bravo (quase 161 400ha) seguido pela floresta mista (principalmente pinhal bravo e eucaliptal), quase 70 300ha, pelo eucaliptal, com cerca de 53 400ha, e pelas espécies folhosas, 36 100ha. Comparativamente, as extensas áreas de montado de sobro e azinho foram pouco afetadas pelo fogo, tendo ardido, durante toda a última década, um pouco menos de 8 900ha. Arderam ainda mais de 102 800ha de áreas agrícolas, das quais quase 54 900ha com culturas anuais e quase 12 100ha de olival. A restante área ardida (quase 500 000ha) estava revestida de vegetação herbácea e arbustiva esparsa. A utilização de meios técnicos adequados (a deteção remota por satélite é das mais importantes) tem permitido acompanhar de perto o flagelo dos fogos florestais, não só na contabilização das áreas ardidas como na análise da regeneração da vegetação nas áreas afetadas pelo fogo, revelando-se um precioso instrumento para delinear estratégias de prevenção e atuação futuras.

 

Áreas ardidas por concelho, 1995 a 2002
Carta de risco de incêndio, 2000
Áreas ardidas, 1990 a 2003
Áreas ardidas por tipo de ocupação de solo e por ano, 1990/1999

 

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