ATLAS DE PORTUGAL

PORTUGAL NUM MUNDO DE RELAÇÃO

 

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Maria Assunção Gato

COMUNIDADES PORTUGUESAS
Evidências culturais de hoje

Actualmente o português continua a ser uma língua viva junto de múltiplas comunidades repartidas por todos os continentes devido à emigração que, desde a segunda metade do século xix até mais de metade do século xx, manteve uma expressão bastante intensa, agudizando-se em momentos particulares de crise política e económica. Uma das características mais significativas desta emigração é o seu padrão regionalista mais ou menos fiel, em que as pessoas de determinadas regiões mantêm os mesmos destinos ao longo de várias gerações, retomando no exterior os mesmos laços familiares e comunitários do lugar de origem. Assim se compreendem as grandes comunidades de madeirenses em Caracas (Venezuela) e Joanesburgo (África do Sul), as enormes comunidades de açoreanos em cidades dos Estados Unidos como Massachusetts, New Bedford, Boston entre outras, ou as expressivas comunidades de nortenhos espalhados por toda a França, Reino Unido, Suíça e Alemanha.
De entre o total de população portuguesa e de origem portuguesa a residir no estrangeiro em 2002, estima-se que só o continente americano comporte cerca de 58% (24% nos eua, 14% no Brasil, 10% no Canadá e 8% na Venezuela), seguindo-se a Europa com 31%, seguida de longe pela África com 7%, que na sua quase totalidade se encontram na África do Sul. No conjunto destes destinos mais representativos da presença portuguesa haverá lugar para graus bastante variáveis de inserção social e aculturação, tal como variável será também a influência que os portugueses exerceram e continuam a exercer junto das comunidades que os acolheram.

 

Reconstrução a partir de uma planta e documentos do início do séc. XX,
da cidade de Velha Goa no séc.XVI


Uma outra forma de manter viva a memória cultural dos portugueses residentes no estrangeiro é a gastronomia. Daí a presença obrigatória do comércio de produtos alimentares provenientes de Portugal junto das grandes comunidades emigrantes e de alguns restaurantes, o que sempre vai dando para matar as saudades da pátria.
Estes espaços comerciais podem ser entendidos como marca cultural representativa da influência portuguesa no exterior. No entanto, esta característica, por si só, não consegue impôr, nem no tempo nem no espaço distante, o sentimento de pertença e de partilha de um património identitário. Com efeito, tanto no caso das visitas anuais regulares como nas mais raras, o que acontece com uma boa parte dos emigrantes (e os portugueses não são caso único) é uma espécie de duplo desenraizamento, que pode ser colmatado numa terceira cultura, ou seja, numa sobreposição das influências culturais trazidas com as que são recebidas, conjugando-se este somatório de maneiras muito próprias.
No fundo, estas terceiras culturas são hoje uma característica cada vez mais frequente no mundo multicultural em que vivemos, desempenhando em crescendo o necessário papel de mediadoras entre referências culturais que se multiplicam, identidades nacionais que tendem a perder-se ou a exacerbar-se.
No actual mundo globalizado, a par do processo de homogeneização cultural, assiste-se a um certo re-inventar das culturas locais e ao elogio dos seus particularismos. As festas, a gastronomia, a música, o traje e a língua são, neste contexto, elementos privilegiados que não só alimentam o sentimento de pertença das comunidades aos seus espaços como também sustentam a riqueza da sua memória colectiva e fazem a ponte com a identidade nacional.
Se dentro do país se verifica a necessidade de fomentar e explorar o significado de todas estas expressões culturais, no exterior essa necessidade será ainda mais urgente, quer pelos laços que nunca deixarão de unir as comunidades portuguesas à sua pátria, quer pela própria posição que a cultura portuguesa conquistou no mundo. Neste contexto importará destacar o papel de instituições oficiais como o Instituto Camões, que ao longo de vários anos tem vindo a desenvolver uma rede de docência da língua e cultura portuguesas em universidades estrangeiras, coordenando centros culturais e de línguas, bem como apoiando edições no estrangeiro.
Entretanto, não menos importantes que as instituições oficiais de apoio à cultura e comunidades portuguesas, serão os organismos, associações e colectividades que os próprios portugueses criaram nas terras de destino. Nelas se poderão encontrar muitas das soluções aos problemas que se vão colocando no seu quotidiano, os imprescindíveis laços de amizade e solidariedade, os necessários sentimentos de pertença para com as duas culturas em sobreposição e, sobretudo – ainda que com algumas distorções ou adaptações – manter viva a cultura portuguesa no mundo para que Portugal também não esqueça toda a sua gente que está fora.

População nos países de língua portuguesa, 2001
População de origem portuguesa residente no estrangeiro, 2003
Presença cultural do Instituto Camões e associações de portugueses no mundo, 2004
Meios de comunicação social em português no mundo, 2004

 

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