Nas décadas de 40/50
do século passado o território continental
foi percorrido por equipas de especialistas em várias áreas
do conhecimento, com o objectivo de conhecer os usos e
práticas dos portugueses. As pesquisas conduzidas
por Orlando Ribeiro (Geografia), Jorge Dias (Etnografia),
Lindley Cintra (Linguística) e Keil do Amaral (Arquitectura)
confirmaram a riqueza e a diversidade de um Portugal plural.
Jorge Dias apresenta, em 1950, o ensaio Os Elementos Fundamentais
da Cultura Portuguesa no qual faz depender a definição
de uma personalidade-base da Nação de uma herança
cultural, fatalmente afectada pela diversidade cultural inerente às
várias regiões espaciais que a compõem,
bem como pelos diferentes estratos sociais da sua população,
inevitavelmente influenciada pelo exterior e naturalmente
transformada no decorrer da sua própria evolução.
Apesar do reconhecimento de tão ‘arriscada e
difícil’ tarefa, Jorge Dias assentou a cultura
portuguesa em bases estruturais geográficas e históricas:
se por um lado os lusitanos resultam de uma variada fusão étnica
entre povos do Norte e do Sul, compondo à sua maneira
a herança de traços de personalidade obtidos
de uns e outros, por outro lado, foi a situação
geográfica de Portugal que contribuiu indiscutivelmente
para o carácter expansivo da cultura portuguesa.
Com mais de meio século passado sobre esta caracterização,
tanto se pode questionar a actualidade deste retrato como
a aparente inércia do nosso carácter, num tempo
repleto de grandes e rápidas mudanças.
Na leitura de Boaventura Sousa Santos (1994), o ensaio de
Jorge Dias é classificado como um dos textos mais
representativos dos discursos míticos sobre Portugal,
que, à força de tanto ser repetido, se torna
evidente e verdadeiro. Mas não obstante esta crítica,
as suas reflexões sobre as contradições
de um Portugal que foi simultaneamente centro de um grande
império colonial que não conseguiu gerir convenientemente,
e a periferia de uma Europa que se vai desenvolvendo sem
quase o incluir, não deixam de ir ao encontro da dupla
representação do carácter do homem português
e da plasticidade, ambiguidade e indefinição
de que falava Jorge Dias. Neste sentido, a concepção
de cultura de fronteira que Sousa Santos aplica à cultura
portuguesa para a caracterizar, não deixa de corresponder à capacidade
de adaptação reconhecida por Jorge Dias.
Nesta cultura de fronteira cabem igualmente as regiões
autónomas da Madeira e dos Açores que, pelas
suas características geográficas e históricas,
não só reclamam uma autonomia político-administrativa
como também cultural, visto a sua heterogeneidade
populacional – devida à diversidade de colonizadores
idos de Portugal e de alguns países da Europa do Noroeste – funcionar
como uma identidade homogénea face às culturas
do continente. Por contraste, os ilhéus dos Açores
e Madeira são uns portugueses diferentes. Importará aqui
destacar tanto o aspecto cosmopolita de algumas destas ilhas
devido à emigração e aos habitantes
e visitantes estrangeiros, como o grande isolamento a que
outras estão votadas pela sua pequena dimensão
e posição geográfica.
Nas palavras de Vitorino Nemésio, citado por João
Leal (2000), os Açores surgem como “um corpo
autónomo de terras portuguesas”, “um Portugal
requintado” porque recebeu dele toda a glória
e prosperidade da época quatrocentista e assim permaneceu;
daí a reflexão sobre a “açorianidade” se
fixar no português de Quatrocentos, valorizando também
as especificidades culturais devidas à realidade geográfica
das ilhas.
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