Num tempo que está para
além da modernidade e em globalização
cada vez mais intensa, verifica-se que com alguma frequência
se continua a recorrer à forma paradoxal de ser
e agir dos portugueses – entendidos enquanto grupo
cultural homogéneo – para justificar bons
e maus resultados que vão conseguindo nas mais variadas
tarefas e projectos, bem como para reinventar especificidades
culturais e recuperar memórias que se vão
desvanecendo na descaracterização que a todos
afecta. Não obstante as grandes transformações
sofridas após a conquista da democracia, parece
teimar-se no comum discurso do sonho e da glória
para nos projectarmos no exterior, quando internamente
nos ligamos irremediavelmente a um fado demasiado fatalista
para justificar as grandes dificuldades estruturais de
que o País sempre padeceu e que ainda não
soube contrariar.
A propósito da definição da identidade
cultural portuguesa, Boaventura Sousa Santos propõe
como hipótese de trabalho o esvaziamento do seu conteúdo,
restando-lhe apenas a forma, que é a fronteira ou
a zona fronteiriça. Nas suas palavras, “a nossa
cultura nunca se conseguiu diferenciar totalmente perante
culturas exteriores, no que configurou um défice de
identidade pela diferenciação. Por outro lado,
a nossa cultura manteve uma enorme heterogeneidade interna,
no que configurou um défice de identidade pela homogeneidade.”.
Perante estas palavras, torna-se mais evidente a construção
e contínua divulgação do anterior discurso
identitário, tal como se compreende melhor porque é que
os portugueses insistem na criação de ícones
para se reconhecerem enquanto grupo cultural, num tempo em
que se torna cada vez mais difícil falar de identidades
nacionais.
Enquanto nação multicultural, cosmopolita e
europeia, os nossos ícones ou símbolos de distinção
são os novos heróis do momento que nos projectam
no exterior e os eventos internacionais que ocasionalmente
vamos organizando: Exposição Mundial de Lisboa – Expo'98 –,
Campeonato Europeu de Futebol – Euro 2004 –,
Festival internacional de música de iniciativa brasileira – Rock
in Rio Lisboa; de figuras de renome internacional – Figo,
Eusébio, Amália, Mariza, Siza Vieira, Manoel
de Oliveira, José Saramago e outros, de cujo mérito
nos apropriamos para alimentar o nosso orgulho em ser português
no mundo.
Entretanto e na convivência quotidiana interna, não
ficamos alheios à ampla e rápida difusão
de referências culturais divulgadas essencialmente
pelos meios de comunicação social, que nos
envolvem em culturas de consumo tipicamente urbanas e que
nos ajudam a definir e a compor novos estilos de vida cosmopolitas.
Mas importará não esquecer que a cultura portuguesa
não começa – e tão pouco se esgota – nas
novas imagens e símbolos de modernidade que têm
vindo a transformar as principais cidades do País.
Para além destas, permanecem territórios mais
esquecidos e com ritmos diferentes de mudança que,
contribuindo de igual forma para a complexa caracterização
de uma identidade nacional, continuam a viver em muitos casos,
na total ausência de uma produção cultural
que não seja o seu próprio quotidiano, sequiosos
de informação e entretenimento que não
se esgote nos vulgares aparelhos de televisão e rádio
que possuem, quando é esse o caso.
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