ATLAS DE PORTUGAL

PORTUGAL NUM MUNDO DE RELAÇÃO

 

Logotipo do SNIG

Search for:
Google

 

Maria Assunção Gato

IDENTIDADE E CULTURA EM TEMPOS DE MUDANÇA
Fronteiras de um Portugal cultural

Num tempo que está para além da modernidade e em globalização cada vez mais intensa, verifica-se que com alguma frequência se continua a recorrer à forma paradoxal de ser e agir dos portugueses – entendidos enquanto grupo cultural homogéneo – para justificar bons e maus resultados que vão conseguindo nas mais variadas tarefas e projectos, bem como para reinventar especificidades culturais e recuperar memórias que se vão desvanecendo na descaracterização que a todos afecta. Não obstante as grandes transformações sofridas após a conquista da democracia, parece teimar-se no comum discurso do sonho e da glória para nos projectarmos no exterior, quando internamente nos ligamos irremediavelmente a um fado demasiado fatalista para justificar as grandes dificuldades estruturais de que o País sempre padeceu e que ainda não soube contrariar.
A propósito da definição da identidade cultural portuguesa, Boaventura Sousa Santos propõe como hipótese de trabalho o esvaziamento do seu conteúdo, restando-lhe apenas a forma, que é a fronteira ou a zona fronteiriça. Nas suas palavras, “a nossa cultura nunca se conseguiu diferenciar totalmente perante culturas exteriores, no que configurou um défice de identidade pela diferenciação. Por outro lado, a nossa cultura manteve uma enorme heterogeneidade interna, no que configurou um défice de identidade pela homogeneidade.”.
Perante estas palavras, torna-se mais evidente a construção e contínua divulgação do anterior discurso identitário, tal como se compreende melhor porque é que os portugueses insistem na criação de ícones para se reconhecerem enquanto grupo cultural, num tempo em que se torna cada vez mais difícil falar de identidades nacionais.
Enquanto nação multicultural, cosmopolita e europeia, os nossos ícones ou símbolos de distinção são os novos heróis do momento que nos projectam no exterior e os eventos internacionais que ocasionalmente vamos organizando: Exposição Mundial de Lisboa – Expo'98 –, Campeonato Europeu de Futebol – Euro 2004 –, Festival internacional de música de iniciativa brasileira – Rock in Rio Lisboa; de figuras de renome internacional – Figo, Eusébio, Amália, Mariza, Siza Vieira, Manoel de Oliveira, José Saramago e outros, de cujo mérito nos apropriamos para alimentar o nosso orgulho em ser português no mundo.
Entretanto e na convivência quotidiana interna, não ficamos alheios à ampla e rápida difusão de referências culturais divulgadas essencialmente pelos meios de comunicação social, que nos envolvem em culturas de consumo tipicamente urbanas e que nos ajudam a definir e a compor novos estilos de vida cosmopolitas. Mas importará não esquecer que a cultura portuguesa não começa – e tão pouco se esgota – nas novas imagens e símbolos de modernidade que têm vindo a transformar as principais cidades do País. Para além destas, permanecem territórios mais esquecidos e com ritmos diferentes de mudança que, contribuindo de igual forma para a complexa caracterização de uma identidade nacional, continuam a viver em muitos casos, na total ausência de uma produção cultural que não seja o seu próprio quotidiano, sequiosos de informação e entretenimento que não se esgote nos vulgares aparelhos de televisão e rádio que possuem, quando é esse o caso.

 

anteriorseguinte


Instituto Geográfico Português
Logotipo do IGP
Home | Contactos | Equipa | IGP