Quando falamos em Cultura
Portuguesa não deixamos de pensar na enorme diversidade
de testemunhos que, de Norte a Sul do Continente e da Madeira
aos Açores, marcam as nossas especificidades de
carácter, reflexão e acção
enquanto membros de um único País.
Mas se falarmos em Produção Cultural, imprimimos
uma dimensão bem mais dinâmica a esse património
existente, reconhecendo-se que é através de
uma actividade cultural constante, abrangente, participativa
e não-selectiva que as sociedades conseguem atingir
níveis de desenvolvimento de qualidade superior e
mais igualitários.
Em termos de uma ‘cultura posta
em prática’, não são necessárias
as estatísticas para que facilmente se perceba
que, em Portugal, também se fazem sentir grandes
disparidades no sector da produção cultural.
Esta realidade pode ser atribuída a factores
tão diversos como:
— os profundos atrasos no campo da educação e que a ainda
recente democracia nem sempre parece conseguir recuperar;
— a centralização dos bens culturais nas principais cidades
do País (sobretudo no litoral), não só devida às
maiores concentrações de público mas também por causas
que se prendem com as políticas públicas de desenvolvimento regional
que contemplam o dinamismo cultural;
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— os
parcos investimentos que as administrações
locais fazem, de uma maneira geral, no sector da Cultura;
— a
crescente tendência para a privatização
da actividade cultural e respectiva sujeição às
regras de um mercado cada vez mais massificado;
— as dificuldades económicas de uma boa parte
da população e a sua incapacidade de aceder
a bens culturais cujos preços ditados pelas entidades
privadas continuam a fazer da cultura algo de muito erudito,
selectivo e discriminatório;
— uma certa inércia, descrédito ou até mesmo ausência
de um prazer quotidiano pela Cultura nas suas múltiplas modalidades que
parece existir numa parte da população portuguesa, independentemente
da sua localização, nível de instrução e grupo
económico.
É
obvio que esta tentativa de interpretação da
realidade cultural em Portugal não esgota as razões
que explicam o porquê da hegemonia (quase ditadura)
da televisão enquanto meio privilegiado de informação
e elemento cultural massificador. Tão pouco explicam
os elevados níveis de iliteracia na população
jovem e os baixos níveis de leitura e compra de livros
pela população em geral, quando até se
verifica o aumento do número de bibliotecas disponíveis
em todo o território nacional.
Apesar do destaque dos jornais desportivos, a imprensa diária
também se pauta na generalidade do País por
tiragens insignificantes se comparadas num contexto internacional.
A imprensa especializada dirige-se a segmentos sociais específicos,
definidos em função do género, geração,
instrução ou categoria socioprofissional, reconhecendo-se
o sucesso que a chamada ‘imprensa cor-de-rosa’ parece
ter junto de um público económica e socialmente
tão distinto daquele que retrata.
Face a estes breves exemplos, não será de estranhar
a ‘capacidade de absorção’ que
uma boa parte das população urbana portuguesa
parece ter em relação aos modelos, modas e
estilos culturais massificados. Os recentes desenvolvimentos
dos meios de informação e comunicação
têm tido um papel determinante na criação
e divulgação de uma cultura que tende cada
vez mais para a globalização e descaracterização
local, embora deixando nichos que favorecem o fortalecimento
dos seus laços identitários.
Contudo, não se podem dissociar estas tendências
do suporte consumista que lhe está associado e tão
pouco se pode ignorar o crescimento e a transformação
urbanística que as cidades do litoral, de um modo
geral, têm demonstrado.
Neste cenário é também importante a
referência ao surgimento de mais 33 museus em Portugal
em apenas um ano, dos quais 30 no Continente, 2 na Madeira
e 1 nos Açores, a somar aos 201 que já existiam;
e também ao acréscimo de mais um milhão
de visitantes registados na totalidade dos museus nacionais
no mesmo período (2000/2001).
Para esta realidade contribuirão factores como a crescente
procura do turismo e de visitas escolares, mas também
o evidente esforço de modernização que
estes espaços de cultura têm vindo a desenvolver,
oferecendo cada vez mais conforto e serviços complementares
aos seus visitantes.
Apesar de ser significativo o investimento que algumas vilas
e cidades de menor dimensão estão a fazer no
sector da cultura, o protagonismo continua a pertencer às
duas grandes áreas metropolitanas de Lisboa e Porto,
que parecem apostar cada vez mais num modelo de consumo cultural
em espaços multifuncionais, onde as novas temporalidades
das sociedades urbanizadas fazem conjugar o consumo e o lazer
no espaço do shopping. A proliferação
dos centros comerciais – que reúnem num mesmo
espaço o hipermercado, as lojas de vestuário,
calçado, electrodomésticos, electrónica,
decoração e restauração das grandes
cadeias internacionais, espaços de divertimento e
várias salas de cinema de projecção
contínua e simultânea – é um claro
exemplo de um modelo de cultura de consumo que poderá ser
adjectivada como volátil, efémera, inconsistente
ou superficial, mas que não deixa de espelhar a sociedade
urbana que, de uma forma geral, a põe em prática.
Se na área metropolitana do Porto existem 7 espaços
comerciais que correspondem a esta descrição
(e entre os quais se encontram 70 salas de cinema) na área
metropolitana de Lisboa o número de centros comerciais
com idênticas características é de 25,
com o total de 175 salas de cinema, estendendo-se desde as áreas
mais centrais da capital até às novas urbanizações
dos concelhos periféricos.
Distribuição
do Património Classificado, 2004
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Estas novas pequenas
salas de projecção
em centros comerciais estão na origem do desaparecimento
de algumas das grandes salas de cinema e teatro, sobretudo
nas grandes cidades, ou ainda de umas quantas reconversões
sob a forma de auditórios ou centros culturais.
Mas também existem casos de novos espaços
culturais, alguns de natureza privada, que têm
feito um reconhecido trabalho ao nivel da promoção
e divulgação de programas culturais bem
diversificados, tal como é merecedor de destaque
o trabalho de conquista de novos palcos para as diversas
artes do espectáculo, como palácios,
jardins, conventos, igrejas, praças de touros,
armazéns, fábricas...
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Mas
as duas grandes cidades de Lisboa e Porto continuam a liderar
em termos de frequência
de espectáculos
e na existência de grandes espaços para esse
efeito quando o ritmo da adesão da população
aos eventos parece cada vez mais marcado por uma sazonalidade
estival e pela moda dos festivais de música em espaços
públicos.
A típica silly season televisiva de verão parece
ser, simultaneamente, uma das causas/efeitos da crescente
onda de festivais musicais, que do Rock ao Jazz, passando
pelos clássicos e pela dança, vão acontecendo
um pouco por todo o País, ajudando a descentralizar
a cultura e a divulgar sítios e culturas locais mais
esquecidas. Importará não esquecer que o verão
português há muito que se divide entre o Litoral
que vai a banhos e o Interior que renova a sua fé nas
romarias e festas religiosas, as quais não dispensam
espectáculos públicos variados – como
touradas, concursos, bailes, concertos musicais de cantores
com sucesso no momento.
Mais recentemente, parece haver uma tendência para
conciliar tudo isto num modelo de férias ‘vá para
fora cá dentro’ através dos Festivais
de Verão, privilegiadamente dirigidos a grupos mais
jovens. Será esta uma nova forma de descentralizar
a cultura portuguesa, levando a população urbana
a descobrir ‘velhos’ territórios; mas
para as populações locais, também representa
a oportunidade de contacto com uma realidade extra-quotidiana,
cuja promoção identitária poderá vir
a ser aproveitada de diferentes formas.
Fazendo nossas as palavras de Augusto Santos Silva, “A
aposta em eventos marcantes, crescentemente aceites nos círculos
críticos, com eco na imprensa de referência
e atraindo consumidores culturais tidos por regulares e esclarecidos, é também
uma aposta em ‘pôr no mapa’ – pôr
em vários mapas várias coisas. No mapa dos
sistemas culturais, nalguns casos internacionalizados, e
também no mapa do território português
e na competição política e simbólica
entre cidades e regiões, ou no mapa dos circuitos
turísticos e patrimoniais, ou no mapa dos investimentos
públicos e privados.”
Parece cada vez mais frequente a procura de projecção
internacional do país através de realizações
culturais, patrimonialização de conjuntos urbanos
e promoção turística. Nesta situação
podem-se incluir as referidas candidaturas à realização
de Exposições Internacionais ou Mundiais e
a eventos desportivos, as candidaturas a Capitais Europeias
da Cultura (Lisboa 94, Porto 2001, Coimbra 2003, Faro 2005),
a elevação a património mundial de conjuntos
urbanos significativos (como os centros históricos
de Évora, Angra do Heroísmo, Guimarães
ou Sintra) e múltiplos festivais – gastronomia,
folclore, fumeiro, vinho, fotografia, teatro, cinema, etc. – que
um pouco por toda a parte vão enriquecendo a agenda
cultural do território português e promovendo
os sítios onde se realizam.
Património
mundial, 2004
A enorme quantidade e variedade
de património classificado
na totalidade do território português, do qual
se destaca o Património Mundial, não só permite
a representação do passado e a evocação
de uma memória colectiva, levando-nos a recordar que
muitas terras do interior já tiveram uma dinâmica
cultural bem mais significativa do que actualmente, como
também não nos deixa esquecer os variados testemunhos
originais da história do País e património
arquitectónico, cultural e identitário da
sua gente.
Mas para além de tudo isto, importará referir
igualmente os dividendos turístico-económicos
que se retiram da patrimonialização reconhecida
internacionalmente, o incremento nas ofertas culturais e
a procura da preservação das paisagens dos
lugares classificados que, simbolicamente, pertencem ao globalizado
mundo contemporâneo.
Monumentos
nacionais por concelho, 2004
A tendência observada em algumas povoações
com características patrimoniais mais emblemáticas
mas, que apresentam sérios riscos de abandono e destruição,
tem sido a sua musealização e, em complementaridade
desta tendência mas a uma escala diferente, também
se tem assistido, um pouco por toda a parte, ao sucesso do
turismo rural e de habitação, que não
deixa de ser uma espécie de ‘museu vivo’ de
modos de viver que caíram em desuso nas rotinas urbanas.
Exemplos de locais classificados
como património mundial

Será precisamente a necessidade de fuga a estas rotinas
que também tem contribuído para reavivar o
interesse pela preservação das ‘aldeias’ e ‘vilas’ históricas
portuguesas que, de um modo geral se vêem cada vez
mais divulgadas nos roteiros turísticos internos.
Actualmente, Monsanto continua a ser uma referência
bem portuguesa, mas não o é mais do que Penha
Garcia, Idanha-a-Velha, Marvão, Óbidos, Monsaraz,
Mértola ou Barrancos... Entretanto e porque a expressão
cultural de um País não se resume a alguns
eventos marcantes, serão necessárias políticas
culturais bem mais efectivas, descentralizadas, mobilizadoras
e menos elitistas para alterar, um pouco que seja, o sentir
e o viver da cultura em Portugal.
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