Este Atlas, aqui encerrado,
contém (como qualquer atlas) no interior do conceito,
três elementos: 1) um, de carácter descritivo,
que é a sua vocação primordial; 2)
outro, de carácter analítico, que resulta
da definição subjacente da temática
e da subsequente incorporação da informação
seleccionada; e 3) um terceiro, de visão de conjunto,
i.e., o esforço (subjacente no atlas, para além
de cada um dos mapas, quadros e textos que o integram) de
sistematização de múltiplas dimensões
e perspectivas num corpo tornado coerente em função
do objectivo geral de elaboração, precisamente,
desse atlas – e não de um outro.
Em paralelo, um atlas induz, como pista de reflexão
[dir-se-ia: como texto vivo e não mero suporte morto
de um documento factual], três binários de
tipos de leitura:
1) o dinâmico face ao estático [i.e., a consciência
do que permanentemente está a mudar por sobre o que,
em cada momento, parece permanecer]; 2) o sintético
face ao analítico [i.e., a compreensão da
realidade (ou a sua percepção) na sua natureza
sistémica – e para além dos aspectos
parcelares que, simplesmente, são melhor identificáveis
e cognoscíveis] e 3) a acção face ao
quadro [i.e., a relação permanente e eterna
entre a realização concreta e efectiva da
vontade dos homens (o sujeito) por sobre a realidade das
coisas (o objecto), assim construindo o processo histórico].
Deste modo, o Atlas constitui [desde que se saibam articular
os três elementos da sua definição com
os três tipos binários da sua leitura] um ponto
de partida, particularmente vantajoso, para o leitor estruturar
a sequência necessária que subjaz a todo o
comportamento humano:
1) compreender; 2) assumir e 3) agir.
Desde logo, compreender: é o resultado directo da
conjugação dos três elementos de carácter
descritivo, analítico e de visão de conjunto.
Cada mapa, cada gráfico e cada nota explicativa contém
uma multitude de elementos de informação que
se situam para lá da mera informação
pictórica ou redaccional; para além da informação
neles processada, situa-se o resultado do esforço
de compreensão que aprofunda e alarga o conhecimento.
A clássica sequência de dados/informação/conhecimento
é, simultaneamente, suscitada e posta à prova
cada vez que se aborda um atlas; daí a conveniência
de – sempre – se procurar – com espírito
de abertura, de humildade e de crítica – ‘fazer
o atlas [ou o mapa] falar’ – ele dirá,
para cada leitor, mais do que aquilo que o seu autor incluiu
na expressão formal do seu trabalho.
De seguida, assumir: é um passo para lá do
conteúdo directo do atlas, porquanto corresponde
a uma alteração qualitativa, por parte do
leitor, no modo de leitura, ao passar de um simples acto
intelectual de compreensão para uma atitude, necessariamente
interior, de estruturação da vivência.
O atlas permanece como ponto de partida, fica como detonador;
mas o leitor adquire, por si e (inicialmente, apenas) para
si, uma dimensão adicional que o conduz a ultrapassar
o aspecto racional estrito – e que o leva a, no seu
íntimo, se identificar com alguma ou algumas ideias-força
que encontra, que extrai, que induz ou que extrapola da
sua compreensão do atlas.
Por fim, agir: situa-se, necessariamente, para além
do que é a vocação directa do atlas;
mas é, também, o resultado esperado da sua
elaboração. Um atlas não é elaborado
para, simplesmente, ficar depositado nas estantes de uma
biblioteca; mas também não pode, espontaneamente,
aspirar a que seja um factor explícito da acção
humana – é um instrumento estruturado de informação
preparatória da decisão e da execução
da acção humana.
Deste breve esboço sobre a natureza e o papel de
um atlas, compreender-se-á facilmente que convirá
passar a alguma aplicação específica.
No caso do presente Atlas de Portugal, dois casos
de aplicação assumem posição
de destaque: 1) a relação de Portugal com
o mar e 2) a leitura prospectiva da afirmação
de Portugal.
A relação
de Portugal com o mar
No plano da compreensão, trata-se de percorrer um
itinerário obrigatório: o rigor metodológico
do conhecimento científico, nas suas múltiplas
disciplinas, completado por um duplo esforço de comparação
e de enquadramento. Trata-se, em suma, de: 1) descrever
a realidade a partir de uma grelha seleccionada; 2) teorizar
e explicar; 3) enquadrar e 4) comparar com a realidade de
outros países.
Desse modo, poderá compreender-se essa relação
encontrando respostas às questões elementares
de: 1) o que é; 2) como se explica o funcionamento;
3) como compara e 4) para que serve.
A relação de
Portugal com o mar é uma realidade multifacetada,
de carácter geográfico, histórico,
cultural e económico. Cada uma destas dimensões
está revestida de lógica própria e
traduz-se por conteúdos específicos que, umas
e outros, variam significativamente ao longo do tempo –
mas que, no seu conjunto, definem uma matriz estrutural
sobre que assenta e que estabelece a natureza da própria
relação.
Um ensaio de explicação do estabelecimento
e, sobretudo, do funcionamento da relação
levam-nos a seleccionar quatro componentes essenciais: 1)
a realidade geopolítica; 2) a base económica;
3) a herança cultural e 4) a verificação
de um apego lírico.
A realidade geopolítica constitui, porventura, o
componente dominante, na medida em que o papel do mar, o
Oceano Atlântico, na formação e no desenvolvimento
da estrutura política do Reino se mostra decisivo,
em dois planos:
1) na estruturação do espaço físico
da faixa costeira face à formação poderosa
da Meseta, conferindo uma dupla lógica de organização
ao território português: a cabotagem no litoral
a Ocidente e Sul e a construção de fortalezas
de fronteira a Norte e Oriente e 2) na preservação,
em permanência, de linhas de comunicação,
de expansão (e, certamente, também de invasão
por mar) convertendo o Oceano Atlântico no grande
espaço de compensação geopolítica
face à pressão estratégica, também
permanente, proveniente do espaço continental da
Meseta, no seu processo multisecular de unificação
por via da força centrípeta do centro geopolítico
da Meseta.
Todos os momentos decisivos, de crise e de afirmação
da existência de Portugal, mostram o peso concreto
(político, económico e cultural) da utilização
desta dinâmica geopolítica da contraposição
entre o marítimo e o continental em que, do ponto
de vista analítico, encontramos a chave da compreensão
do fenómeno português: a única estrutura
política, saída da Reconquista Cristã
na Península Ibérica, que mantém a
sua independência política face ao poder aglutinador
de Castela.
No que respeita aos aspectos económicos, a questão
pode, na actualidade, colocar-se em função
de três linhas fundamentais de raciocínio:
1) a verificação, apesar de tudo, de uma tradição
de actividade no mar, em que avultam a pesca, alguma navegação
mercante de transporte de mercadorias e, indirectamente,
um extenso conjunto de actividades turísticas (ainda
que submetidas ao conceito rudimentar de ‘sol e praia’);
2) a resignação com que os responsáveis
(públicos e privados) se amoldam à perda consistente
de posição das actividades económicas
ligadas ao mar no conjunto da economia portuguesa e 3) o
que é, inequivocamente, mais importante: a assumpção
consciente do papel do hypercluster da economia
do mar no quadro da indispensável reconfiguração
estratégica da economia portuguesa – que tarda
demasiado.
O aspecto económico, anteriormente referido, está
bastante ligado à herança cultural que, em
última análise, resulta da íntima familiaridade
das populações (sobretudo ribeirinhas) com
o mar. Por outro lado e num plano ainda de carácter
imediato, importará salientar, desde logo, a transmissão
cultural da relação pessoal e social com o
mar, no contexto da tradição familiar e, num
plano mais sofisticado, o largo espectro e a longa tradição
de produção científica e de cultura
literária e artística sobre matérias
e temas ligados ao mar.
E importará, sobretudo, ter presente que, na base
da afirmação de todas as potências marítimas
está a permanente criação, transmissão
e difusão de padrões culturais de pensamento
e de comportamento em que o indivíduo aprende –
culturalmente – a conviver, a amar, a conhecer, a
aproveitar, a saber valorizar o mar – e a nele e com
ele afirmar-se a si próprio e contribuir para a afirmação
da sua sociedade.
Encontramo-nos, nesta perspectiva, nos antípodas
da banalidade do chamado e invocado apego ‘lírico’
ao mar; trata-se, este, de uma versão truncada da
herança cultural mas que, no limite, permitirá
ir salvaguardando ao menos uma referência, ainda que
de fraca valia, aos assuntos do mar; não será
por essa via que se recuperará uma capacidade reinventada
de afirmação.
A comparação da situação portuguesa
com a de outros países de vocação marítima
é desfavorável – e, consequentemente,
teremos de aprender, com alguns dos que anteriormente aprenderam,
com os Portugueses, a explorar os oceanos e a organizar
a relação das suas economias com o mar.
E a aprender, ainda, as exigências que a lucidez,
a firmeza, o pragmatismo, a persistência e a paciência
impõem para que uma estratégia seja bem sucedida;
caso contrário, o consolo psicológico da expressão
poética da ‘ligação ao mar’
nada vale – é pura fantasia irrelevante.
Finalmente, ao estudar devidamente este Atlas, vendo o mar
oceano e a relação de Portugal com ele, convirá
explicitar o papel dessa leitura reflexiva, i.e., estarmos
atentos à questão elementar de procurarmos
saber ‘para que serve’.
Para além de fonte de novos conhecimentos (o que,
em si, já é suficientemente interessante)
a leitura reflexiva conduz-nos a duas linhas fundamentais,
porventura decisivas, para o futuro de Portugal. Desde logo,
a realidade objectiva de o hypercluster da economia
do mar constituir dos poucos domínios com potencial
de preenchimento do gap estratégico entre um cenário
(espontâneo) de definhamento e um outro (aspiracional)
de afirmação da economia portuguesa.
E, seguidamente e sobretudo, a realidade subjectiva e colectiva
(e, por isso mesmo, superiormente relevante e historicamente
decisiva) da função da ligação
de Portugal ao mar oceano como suporte definidor e diferenciador
da identidade nacional. Haverá que reconhecer que
tudo o resto lhe está subjacente, porque submetido
– caso contrário, a questão não
se colocaria porque o inexistente não pode ser identidade.
A leitura prospectiva da afirmação
de Portugal
Na apresentação deste segundo caso de aplicação,
é utilizada a mesma sistematização
do anterior abordando, sucessivamente, as respostas às
quatro questões elementares antes seleccionadas.
Dever-se-á, consequentemente, começar explicitando
que a leitura prospectiva da afirmação de
Portugal é, por natureza, um exercício intelectual
e formal em que se pretende reflectir sobre o futuro, para
melhor agir no presente.
Daí decorre a capacidade de leitura prospectiva para
actuar como formadora de um contexto conceptual gerador
de uma visão para o futuro e é, necessariamente,
com base numa visão para o futuro, partilhada pelos
cidadãos, que pode ocorrer o processo, indispensável
e único, de aprofundamento da natureza identitária
da entidade específica que é Portugal como
Pátria.
Buscando compreender os mecanismos de funcionamento da articulação
entre leitura prospectiva e afirmação de Portugal,
importará salientar, sobretudo, que a afirmação
resulta do processo (complexo) de projecção,
para o exterior – e no exterior – do potencial
interior contido na identidade e nas capacidades de Portugal.
Há, portanto, ao reflectirmos sobre a afirmação
de Portugal no futuro, a dupla exigência de: 1) estruturação
das condições de desenvolvimento de capacidades
na economia e na sociedade portuguesas e 2) organização
estratégica da projecção nacional para
o exterior, nas suas múltiplas dimensões.
Nem uma, nem outra, estão devidamente acauteladas
neste período da viragem do último quartel
do século XX para o primeiro do século XXI
– muito embora a matriz profunda do sentir e da identidade
do Povo constitua garante de resposta histórica,
sociologicamente expressa e, inexoravelmente, fonte de interpelação,
mais ou menos consciente, mais ou menos angustiada, feita
às elites [ou às não-elites] e, frequentemente,
deixada sem resposta válida ou, sequer, credível.
Perante este quadro, não surpreende muito que, ao
procurarmos estabelecer uma comparação com
outros países (nomeadamente europeus) Portugal se
revele como contendo no seu interior uma sobre-identificação
que se traduz, face ao exterior, numa sub-afirmação.
Portugal exprime a sua sobre-identificação
(que sente e vive no seu interior) praticamente sem termo
médio e sensato: auto-crítica permanente,
exacerbação de comportamentos entre euforias
(que mais não são do que auto-ilusões)
e depressões ou pessimismo (que traduzem, frequentemente,
um pólo oposto equilibrador e facilitador, porque
auto-justificativo); mas essa sobre-identificação
expressa-se mais consistentemente ao verificar-se que a
já citada debilidade do termo médio ocorre
superficialmente, sobre um subestrato, não expresso,
de resiliência e continuidade (que, historicamente,
se mostra muito sólido).
Por outro lado, a leitura prospectiva da afirmação
de Portugal pressupõe o processamento, teórico
e político, da sequência obrigatória
de quatro passos essenciais, cada um deles de relevância
crítica: 1) começa pelo espaço geográfico;
2) segue pela leitura geopolítica e prospectiva;
3) assenta na vontade e na capacidade de acção
dos homens e 4) culmina na força interior resultante
da convicção de uma estratégia para
o futuro.
As considerações genéricas acima formuladas
sobre a leitura prospectiva da afirmação de
Portugal têm implicações relevantes
para o futuro de Portugal – em boa medida, é
para isso mesmo que servem.
Com efeito, atentas as realidades com que nos confrontamos,
uma reflexão sobre o futuro (que procure colocar-se
para além do mero circunstancialismo episódico)
induz uma ideia dominante: a de reinvenção
de Portugal.
Neste termo (‘reinvenção’) situamo-nos
muito para além do exercício de prospectiva,
para nos colocarmos, colectivamente, na dimensão
de uma reflexão de comprometimento, com uma tripla
exigência acrescida:
1) de responsabilidade de cidadania; 2) de criatividade
na vida económico-social e 3) de sentido de Estado
face às exigências do bem-comum dos Portugueses
e do corpo estruturado da Nação.
Reinventar, no sentido aqui referido, não tem conotação
negativa de destruição. Antes pelo contrário,
significa: fazer de novo e (sobretudo) melhor; corrigir
e prevenir erros verificados; extrair o potencial estratégico
contido na economia e na sociedade (ultrapassando os constrangimentos
e os bloqueios); compreender, assimilar e revivificar a
herança do passado com visão criativa para
o futuro. Em suma: trata-se de articular, no seu conjunto,
uma visão estratégica, uma vontade de acção
e uma capacidade de concretização.
Para concluir, apenas uma nota final que, absorvendo todas
as considerações anteriores, procura sintetizar
o essencial desta reflexão sobre o presente Atlas
de Portugal: este Atlas servirá, sobretudo, para
nos interrogarmos – e sabermos responder – quanto
à questão central: o que é ser
Português, na segunda metade do século
XXI.
Com estudo e trabalho, cada um de nós saberá
responder; e, ao fazermo-lo, estaremos a dar a resposta
colectiva perante a História – não apenas
a do passado; também a do presente que vivemos e
a do futuro que construímos.
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